Verdades e mentiras sobre a vida

Verdades e mentiras sobre a vida

Há alguns elementos da nossa vida que, quando identificados, atrapalham a fluidez dos relacionamentos. Frieza e desconfiança podem nos levar a interpretar indevidamente os sinais e nos colocar permanentemente assombrados pela neblina de uma possível traição. Nesse tipo de terreno, constrói-se o antimodelo de um relacionamento interpessoal saudável. É aquele no qual os participantes creem-se “jogadores” e que precisam se comportar como “espertos enganadores” para usurpar o que o outro tem.

Kleber Nascimento nos ofereceu algumas reflexões preciosas a respeito das alternativas de relacionamento, construindo quatro binômios. Ele parte do princípio que, na comunicação, as trocas são baseadas em dois pilares: conteúdo e motivação.

O conteúdo vai se referir sempre ao “o que eu digo”. Ele pode se dividir assim:

  • Verdade
  • Mentira

A verdade não se trata de uma verdade universal, mas sim da minha “verdade”. O que eu penso, o que acredito.

A mentira, que tem como significado óbvio ser o contrário da verdade, vai além disso. Pode-se tratar também da ausência da verdade: a omissão. Deixar de dizer algo que testemunhei pode levar à condenação de um inocente, por exemplo.

É bastante comum que olhemos a comunicação pelo viés do julgamento: verdade ou mentira, o conteúdo dito ou não dito. No entanto, temos outro aspecto que se refere ao o que eu digo. Por exemplo: por que eu faço uma crítica para elevar ou puxar o tapete? Qual a minha real motivação?

Nesse terreno, o “como eu digo”, “quando eu digo” e “onde eu digo” vai fazer toda a diferença.

A junção destes elementos formata condições de cuidados com o outro. Chamemos esses cuidados de:

  • Amor
  • Desamor

Tomando, portanto, as condições de Conteúdo e Motivação, vamos formar 4 binômios:

  • Mentira com desamor
  • Mentira com amor
  • Verdade com desamor
  • Verdade com amor

Mentira com desamor, lamentavelmente, é a relação mais presente no nosso modelo sócio-político. Esse binômio levou à falência o nosso grau de confiança nas instituições e em praticamente toda a classe política.

Na verdade, este seria um antimodelo de relacionamento. Se for a prática usual de uma pessoa, sugere tratar-se de mau caráter ou psicopata.

Já os outros 3 binômios são bem comuns entre nós. Podemos passar de um para outro, mas geralmente nossa personalidade aponta para tendência de recairmos mais sobre um deles.

A Mentira com Amor manifesta-se muitas vezes por insegurança, por necessidade de ser aceito, por dificuldade de dizer não ou lidar com conflitos. Em situações assim, acreditamos poder poupar o outro, dizendo o que seja conveniente. Na verdade, o amor deste binômio deve ser colocado entre aspas. Ele é mais uma postura de autopreservação do que de cuidado com o outro.

Na Verdade com Desamor passamos o trator em cima do outro em nome da verdade. Não importa nada disso de como, onde e quando falar. Muitas vezes vemos pessoas batendo no peito com muito orgulho e dizer: “eu sou franco mesmo. Comigo é assim: pão, pão, queijo, queijo”. Pessoas assim, ainda que deixem o outro atropelado, ficam felizes por ter dito a verdade, sem avaliar o estrago.

Já quando a Verdade é com Amor vai ser dito o que se pensa, buscando a forma mais propícia de favorecer a escuta.

A verdade com amor pode falar de coisas difíceis, até mesmo contundentes, mas sempre cercando a comunicação dos cuidados inerentes ao amor.

 

Sobre os binômios de verdades e mentiras sobre a vida

A relação mais usual é a mentira com amor. Mas tal qual uma doença silenciosa, é também muito perigosa. Ela tem um efeito acumulativo do seu real sentimento ou percepção que vai sendo reprimido, podendo evoluir para dois desfechos:

  • Explosão – quando o efeito gota d’agua faz com que, por uma questão minúscula, venha à tona todo o mal-estar reprimido, assustando quem estava desprevenido e geralmente gerando conflitos.
  • Implosão – quando você somatiza todo o mal-estar, jogando para o corpo e adoecendo.

Se para o mundo dos negócios a verdade com amor é uma relação ingênua e impensável para o relacionamento humano, ela é o processo mais rico e poderoso para prevenir sofrimento. Verdade com amor evita desgastes e conflitos, criando o bem-estar impagável da construção de relações com confiança.